Eu tenho feito uma caminhada para entender o “Antigo Testamento”, mais especificamente o texto que chamamos de Lei, o Pentatêuco, os cinco primeiros livros escritos por Moisés - Gênesis, Exodos, Levíticus, Números e Deuteronômio. Isto Motivado por um momento da humanidade, em que é supervalorizado o amor, e isto se estabelece como a principal marca do caráter de Deus.
Parece que todos nós gostamos de eleger textos prediletos para criar nossos conceitos de Deus e também afirmarmos o que acreditamos sobre o cristianismo. Todos, queremos Deus à nossa imagem e semelhança e as afirmações a respeito dele devem ser politicamente corretas. Assim constituímos a religião que nos agrada e nos ajuntamos para nos identificar com um grupo, que expressa e defende nossa visão.
Nestes dias, a transformação cultural proposta pela intelectualidade humana caminha na direção da desconstrução do discurso cristão e as consequências dele para a sociedade. Quanto mais o tempo passa o desafio para o cristianismo será mostrar a ortopraxia (a prática correta do cristianismo) como solução para a humanidade, ela será a porta de entrada da humanidade para o retorno a ortodoxia.
Por isso resolvi estudar o Pentatêuco, pois é a volta à raiz de todas as coisas, e nela em especial em Gn 1-2, está o embrião da revelação do propósito eterno. Aquilo que Moisés viveu e praticou, autenticou o que escreveu. Acho que por isso quanto mais estudo mais me entristeço com a abordagem que separa Novo testamento de Antigo testamento, tempos da Lei e da graça, tempos de justiça e de amor.
Confesso que na perspectiva que tenho lido, vejo a imensidão da graça de Deus demonstrada no serviço amoroso de Deus à humanidade. Estes cinco livros, escritos por Moisés, expressão o coração paterno de um Deus amoroso, utilizando um homem que antes frustrado com seus métodos agora, feito profeta, é também pastor e aprendiz do que Deus pretende fazer na história. O coração pastoral de Moisés está presente na formação de uma nação, mas nós sempre gostamos de ver as regras e os limites ao invés da liberdade.
Princípios para esta perspectiva:
- respeitar a época do autor;
- respeitar o público que ouve;
- respeitar o propósito do registro;
- respeitar o momento existencial de todos;
- entender a acomodação do ensino de Deus ao momento daqueles que querem aprender produzindo transformação em obediência a Deus na história;
- entender os princípios universais que podem transformar a história da humanidade do que é para o que deveria ser.
Quero neste breve espaço deixar registrado apenas três coisas que são fundamentais para Moisés:
1. Deus
Para que provar que Deus existe? Para que provar que ele não existe? Para que provar qual Deus é verdadeiro? Para Moisés, Deus é antes da existência, e ainda seria Deus antes de existirmos. Então mesmo que não houvesse a existência Deus é! E Ele, na expressão de Seu gracioso amor: criou, e propôs a inclusão na eternidade.
O Propósito Eterno
A linha mestra que permeia todo o escrito de Moisés, e depois liga a criação à consumação, o que seria antes ao que será depois. O propósito eterno é a idéia do Criador para todas as coisas. Esta descrita de forma resumida em Gn 1-2; mas desenvolvida em todos os livros. Ela toma por base a pessoa do Criador, pois a realidade última é uma pessoa. O fundamento de toda a existência é pessoal, e completa em Si mesmo.
Deus é! E,
*graciosamente compartilhou Sua inteligência criando;
*graciosamente compartilho Seu Ser formando a humanidade;
*graciosamente compartilhou relacionamentos inspirando novas relações;
A Humanidade
Em toda a unidade cosmológica da criação, onde toda a interdependência acontece e podemos desvendar pela inteligência compartilhada por Deus a nós, a humanidade é a expressão da criação que partilha sua dependência da criação e do Criador.
Neste caso, sair da criação, significa deixar de existir, destruir a criação significa destruir a si mesmo, mas principalmente sair do Criador, significa deixar de significar, deixar a fonte de toda a expressão de quem somos.
A escolha para livrar-se do criador fez a humanidade se tornar o senhor de si mesmo. E como senhor deve suportar toda a vida. Como isso não é possível fora da fonte, que a tudo provê, a humanidade é incapaz de suportar o peso da história do cosmos. E o cosmos é incapaz de manter uma humanidade sem Deus. Esta história traz sobre a humanidade a morte, e a própria humanidade se auto destrói, acaba com sua casa, relações e a si mesmo. Ela mata, gera relações mortais, morre e continua indo em direção à morte.
Por isso toda a ação de Deus nos escritos de Moisés é a possibilidade do retorno ao propósito eterno, ao aprendizado com o criador, que impede o aumento do mau restringindo a capacidade humana de se tornar “deus”. Deus graciosamente se revela na história afirmando, estou aqui a teu favor. A humanidade continua falando não ao Criador. A humanidade prefere a si mesma na sua independência.
Para Moisés, esta história será trilhada em direção ao futuro, por duas escolhas possíveis:
- Deus é o centro e eu construo tudo a partir de Deus
- A humanidade é o centro e ela viverá independente de Deus.
Entre estas duas escolhas possíveis, as boas novas que permeia todo o Pentatêuco é que Deus vai estar presente na história com possibilidade de ser achado, transformando, restringindo o mau. Permitindo à humanidade co-criar sob a tutela de Deus novos entendimentos e assim transformar na história o que ela mesmo destruiu.
Assim como consequência temos, duas propostas de sociedades:
- a humanidade nega Deus como revelada por Moisés e assim produz sua própria história;
- a humanidade volta-se para Deus e vai reaprender na história a realinhar a sociedade com propósito eterno de Deus, esperando um futuro redimido ao propósito eterno;
Mas nenhuma das duas será capaz de alcançar a perfeição, a diferença é onde colocam a esperança e a decepção. Basta olharmos aquele povo, que apesar de serem escravos, são chamados a sair, e tornam-se uma tribo nômade no deserto, aprendendo, desvendando como ser uma nova sociedade, para se tornar uma nação que vai abençoar nações.
Deus não entrou na história para corrigir os erros da humanidade. Ele revela à humanidade a obrigação dela mesma assumir a responsabilidade de construir a história em direção ao propósito eterno de Deus. É a humanidade quem agora deve ir ao encontro da esperança no Criador e assim se re-orientar em Deus durante sua caminhada na história.
Nenhum comentário:
Postar um comentário