Existe uma diferença histórica, cerca de 430 anos, entre Abraão e o dia que esta história foi registrada. Uma narrativa de Moisés no primeiro livro da Torá. Porque Moisés contaria esta história?
Como resposta a esta pergunta, apesar de não termos como nos isentar da nossa história, e conceitos já estabelecidos por ela, temos duas opções:
a. interpretar a história registrada a partir dos óculos do século vinte e um, da nossa individualidade, e assim dizer aos escritos de Moisés o que ele deveria nos ensinar;
b. ou podemos ser o mais sincero possível, na busca da individualidade histórica de Moisés, para entendermos o que ele vivia e o que o motivou a escrever. Para que serviu o registro dos fatos históricos feito por Moisés? Queria ensinar o que? Escreveu para quem? Para que propósito? Só assim saberemos porque ainda temos este texto em mãos.
Eu sou um pregador, não sou um pesquisador do mundo antigo, estou ensinando o que Moisés ensinou e que serve para nós hoje, a partir da perspectiva do próprio Moisés, assim como ele mostrou que foi nos seus escritos, começando por Gênesis. Gênesis é para mim, uma das principais chaves da humanidade, um escrito histórico simples, como se conta história a uma família, para mostrar as raízes da família, querendo estabelecer princípios inegociáveis desta família.
Moisés quando registra tudo, é um velho, um grande homem, um herói, é aquele a quem foi proporcionado uma honra histórica, ser um libertador. O único libertador na história da humanidade que não liberta para proveito próprio, que não usufrui das honras de sua libertação, só dos fardos.
Lembram da história, um homem – Abraão, uma família, que encontra abrigo no Egito, um povo vassalo, vivendo as dores de seu sofrimento na terra do Egito (Gn 1.13-14). A dor, o sofrimento, e o infanticídio sobre a história da promessa, um povo que incomoda, dentro de um povo que governa e oprime, uma promessa se cumprindo.
Abrão; e eis que lhe sobrevieram grande pavor e densas trevas. Então disse o Senhor a Abrão: Sabe com certeza que a tua descendência será peregrina em terra alheia, e será reduzida à escravidão, e será afligida por quatrocentos anos; sabe também que eu julgarei a nação a qual ela tem de servir; e depois sairá com muitos bens. Tu, porém, irás em paz para teus pais; em boa velhice serás sepultado. Na quarta geração, porém, voltarão para cá; porque a medida da iniqüidade dos amorreus não está ainda cheia. (Gn 15.13-16)
É nesse contexto que surge Moisés, a partir de uma desobediência civil, as parteiras Sifrá e Puá, preservam as crianças do povo hebreu, do infanticídio imposto por Faraó, no momento do parto, a vida seria preservada. No segundo momento, quando a morte e o choro das crianças se ouvem por mão dos soldados do Egito, o inusitado acontece, surge uma mulher que luta pela vida de um filho, quando na conseguiu mais escondê-lo, inteligentemente, agiu contra todo medo na qual vivia a sociedade, e estratégicamente manda que a filha, irmã da criança observar o que acontecia com aquele menino em um cesto de junco colocado justamente onde a filha de faraó vai tomar banho.
“Este é menino dos hebreus”, disse a filha de faraó, com o coração compungido. Assim Moisés, por uma desobediência de uma filha ao seu pai, faraó, pela preservação da vida, foi criado como filho da filha de faraó, e amamentado por sua própria mãe. Um sábio complô social a favor da história de Deus e contra tudo o que se levanta dizendo não-Deus, não queremos o teu propósito.
Moisés cresce, tenta libertar os hebreus com as suas próprias forças, foge como assassino, constitui família e vive tranquilamente até que o imponderado acontece. Deus vem a Moisés e diz: _ vi a aflição do meu povo? Moisés quis livrar um hebreu em sua aflição, e Deus vê o povo em aflição. Deus intima Moisés: Já que nós dois vemos as mesmas coisas, você é a minha solução para este momento! Uma afirmação que transforma a história. Por mais que Moisés tente fugir, Deus está resolvido, Moisés vai.
O cheque-mate, acontece quando Deus pergunta a Moisés: o Que é isso que tens nas mãos? Hum, como se Deus não soubesse. Deus diz mais: _lança-o na terra? Ele lançou na terra e o bordão virou uma serpente, e Moisés fugiu dela. E o Senhor diz a Moisés, pegue pela cauda. Pegue a serpente pelo único jeito que não se deve pegar de maneira nenhuma, corra o risco de ser picado. Seja vulnerável, é o Eu sou quem liberta através de você. Moisés vai em obediência a Deus, como Abraão foi em obediência a Deus, para falar que o Eu Sou, o enviou. O imponderável aconteceu, a eternidade entrou na história e no meio da história produziu mudança, para que seja feita assim na terra como no céu, a vontade de Deus, por meio dos homens.
Lembram da história, um homem – Abraão, uma família, que encontra abrigo no Egito, um povo vassalo, vivendo as dores de seu sofrimento na terra do Egito (Gn 1.13-14). A dor, o sofrimento, e o infanticídio sobre a história da promessa, um povo que incomoda, dentro de um povo que governa e oprime, uma promessa se cumprindo. Um libertador, um povo nômade, a tribo de Israel, em meio a tantas tribos do crescente fértil antigo, a única tribo, cujo Deus, é um único Senhor, um povo no meio dos povos, o monoteísmo no meio do politeísmo.
A primeira nova ordem mundial, uma tribo nômade, que caminha em direção a uma terra, para ser uma nação. Neste momento de transformação na história da humanidade, quando um movimento de migração de massa flui da grande potência mundial, em direção a um sonho nunca visto por este povo antes, ser uma nação, vivendo a esperança da promessa, “em ti serão benditas todas as nações da terra”, é neste momento que surge a Torá.
Moisés não estava fundando mais uma religião, ele estava libertando um povo, que seria uma nação. Quando Moisés escreve, e conta as histórias registradas, em Genesis-Exodo-Levíticos-Numeros-Deuteronômio, estava estabelecendo as bases fundamentais da república federativa das tribos originárias dos filhos de Israel. Um Jovem-Uma Família-Um povo vassalo-Um povo Nômade-Uma nação, um modelo histórico para todas as nações, da mente do criador, para todos os povos em todas as épocas, de como é a proposta do criador para uma nação.
Você consegue ver a profundidade da transformação social em um intervalo de 500 anos em toda a região do crescente fértil. Deus entrou na história para mostrar como deveria ser, e o homem assim não quis.
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